leitura dominical

«Para um cronista inexperiente como eu, arranjar temas é uma das coisas mais difíceis. Portanto, fico contente quanto surge uma polémica como a dos Grandes Portugueses, que parece exigir a opinião de toda a gente. Fico duplamente contente quando percebo que, no meio da algaraviada opinativa, posso ajudar a responder à principal questão: quem votou em Salazar e porquê?
Ora bem, eu votei em Salazar. E fi-lo por motivos profissionais. É que sou humorista e, não havendo bulha no CDS todas as semanas, há que encontrar assuntos. A meio da noite eleitoral, achei que o Salazar podia não ganhar e então votei nele. Comigo, e por outras razões (não tão legítimas como a minha), votaram 65 mil portugueses (cerca de 41% dos 160 mil votos válidos). Houve quem visse no resultado um “sinal dos tempos”. Outros viram um “sinal de trânsito”. Os primeiros falam na televisão, escrevem em blogues e jornais; os segundos estão num manicómio. Ligo pouco ao que ambos dizem. Mas dou mais crédito aos segundos, apesar de não conseguirem dizer isso sem se babarem.
O “sinal dos tempos” é o desagrado das pessoas pela nossa democracia. Parece que, passados 33 anos, o país continua igual: uma choldra, há corrupção, a justiça é uma anedota, a administração pública é lenta, não crescem diamantes no chão. Igual, mas com diferenças, claro. Para mim, a maior diferença é que agora há liberdade para falar em tudo isto. Mesmo pequena, é uma ressalva que vale alguma coisa. Ainda assim, há imensa gente preocupada com este “sinal dos tempos”. Eu, confesso, também fico preocupado. Não com o “sinal dos tempos”, mas com quem fica preocupado com o “sinal dos tempos”. Porque essas pessoas acham que se deve “fazer alguma coisa”. E a mim faz-me espécie que, passados 33 anos, achem que isto está numa falência tal que se precise de “fazer alguma coisa”. Até por uma questão de justiça: da última vez deu-se uma oportunidade de 48 anos até se “fazer alguma coisa”.
Quem vê neste resultado um sinal de insatisfação com o “estado actual das coisas” e acha que deve ser aplacada com alguma mudança está a pensar em quê? A alternativa a isto é qualquer coisa similar à ditadura. Porque quem tem saudades de Salazar só há-de estar contente num regime desse tipo. Vamos fazer a vontade aos meninos? Admito que a democracia não agrade a todos. Há dois tipos de descontentes com a democracia. Quem acha que o que o 25 de Abril trouxe é de mais e quem acha que o que trouxe é de menos. Uns votam em Salazar; os outros aproveitam a votação em Salazar para agoirar e pedir a mudança. Eu sei bem quem é que tem saudades de Salazar. E não são só taxistas. Os outros querem impingir a balela do voto em Salazar como voto de protesto. Não me convence. Até parece que se quer impedir que quem tenha votado em Salazar seja, de facto, salazarista. É uma falta de respeito. E, como tal, uma maldade: é que todos sabemos que o que um salazarista mais preza é o respeitinho.»
Público 01.04.2007, José Diogo Quintela
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